segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O primeiro Natal do pardalito – Ant. Torrado

Aqui há coisa de três semanas, um pardal do Rossio, daqueles que escolheram para poiso e morada os ramos das árvores que circundam a dita praça, começou assim a história que vamos contar:
— Companheiros pardais, pardalitos e pardalões, escutem todos, a notícia é importante.
Juntou-se a pardalada. Quem ali passe todas as tardes, à hora da saída dos empregos, não deve estranhar o arruído que vem das árvores despidas de folha, mas cheias, cheiinhas de passarinhos tagarelas. As pessoas andam na sua vida muito apressadas, e nem sequer dão conta da chilreada doida dos pardais:
“Chega-te para lá! Aí sou eu”
“Olha o pardalão a querer tomar-me o lugar…”.
“Ai que ainda te dou uma bicada…”.
“Não me provoques!”.
“Toma que é para saberes”.
“Deixa-me em paz”.
Mas voltemos à nossa história.
Oiçamos o que o pardal tem para dizer:
— Peço silêncio, se não calo-me — piava ele, tentando impor a ordem à assembleia.
Demorou o seu tempo.
Os pardais são uns espalhafatosos e uns gralhadores incorrigíveis.
— A notícia que vos trago importa a todos. Há bocadinho, estava eu poisado num ramo baixo, e ouvi uma conversa entre um cauteleiro e um engraxador. Sabem do que estavam a falar?
— De futebol — arriscou um.
— Nada disso. Estavam a falar da Lotaria do Natal, imaginem! Portanto, o Natal está à porta, meus amigos.
Espero que saibam o que isto significa…
Os pardais mais jovens não sabiam, mas calcularam que devia ser coisa grave, porque os pardais velhos, mesmo os mais gaiteiros e risonhos, ficaram, subitamente, de bico caído. As expressões eram de alarme e desalento:
— Temos de mudar de vida.
— Que desconforto!
— Deviam ter-nos avisado.
— O tempo não está para grandes voos.
E cada qual debandou para o seu ramo.
Neste ponto da história, parece-nos indispensável ouvir a fala de um avô pardal para o seu neto que, tal como vocês, amigos leitores, não percebera patavina do sucedido.
— Na quadra do Natal, que é uma grande festa dos homens — contava ele — multiplicam-se e crescem as luminárias por toda a parte. Nesta praça, então nem queiras saber! Fica tudo cheio de luzes e luzinhas de muitas cores, amarelas, azuis, vermelhas, verdes, que nos põem tontos. Onde os homens encontram um sítio para pendurar uma daquelas pêras de vidro que deita luz, penduram.
— Deve ser bonito — observou o neto.
— Bonito talvez seja, mas não para nós. Aparecem fios por toda a parte e, nos ramos das nossas árvores, estendem tantos, com as tais pêras penduradas, que ninguém se entende. Há dois anos, aproximei-me de uma dessas pêras, que se tinha partido, e apanhei um arrepio pelo corpo todo que julguei que me ficava de vez!
— Então para onde vão os pardais passar o Natal? — perguntou o pardalito, atarantado.
— Saltinho aqui, saltinho acolá, alguns escondem-se numas palmeiras, lá para cima, num sítio que os da cidade chamam Avenida. Outros conseguem chegar a um jardim, que me dizem ser muito tranquilo e saudável, um tal Jardim Botânico ou coisa parecida.
— E nós, avô?
— Nós ficamos. Podíamos ir para um telhado próximo, se não andassem por lá os gatos que têm olhos mais perigosos do que todas as luminárias juntas. Olha, naturalmente, vamos para um sítio sossegado que eu conheço, num buraco daquele edifício, ali, no cimo da praça. É um bocado desabrigado e pouco cômodo, mas vais poder dizer, daqui em diante, que dormiste no Teatro Nacional…
Assim que chegaram os eletricistas com as escadas, os cabos e os fios, a pardalada sumiu-se…
Numa destas noites, o pardalito deixou o avô a dormir com a cabeça debaixo da asa, e foi dar uma voltinha pelos arredores do seu novo poiso. O Rossio silencioso e exuberantemente iluminado pareceu-lhe um jardim de sonho.
— Tanta luz de tanta cor! — exclamou.
Nesse momento, um avião sobrevoava a cidade, em direcção ao aeroporto. No escuro do céu só se distinguia as luzes vermelhas da cauda.
— Olha, lá vão duas luzes a fugir…
E dispunha-se a voar atrás delas, se o avô não tivesse acordado, entretanto.
— Para onde ias? — perguntou-lhe ele.
O pardalito explicou. Comentário do velho pardal:
— Que patetice! Ainda tens muito que aprender, pequeno, até te transformares num pardalão sabido!
É o que nós também achamos, ao cabo desta história.




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O Natal das Bonecas – Nuno Higino

A rua tinha luzes de muitas cores que, encavalitadas nos postes, faziam desenhos de Natal. E dançavam ao som duma música cheia de sonoridades leves como algodão. De vez em quando passava um automóvel apressado. Apesar disto, ali da montra onde se encontravam, tudo era frio e distante. Eram duas bonecas que ninguém quis comprar.

— Este é o nosso primeiro Natal…

— E, decerto, o último. Se ninguém nos comprou, vamos ser retiradas da montra e arrumadas, ou entregues à caridade, ou destruídas.

— Assim será, com certeza. A nossa vida depende das leis do mercado.

E foram conversando para passar o tempo, ora filosofando sobre a sua efémera existência, a sua matéria breve, ora imaginando como seria o Natal das pessoas, que só conheciam de ver passar na rua, ou da loja, quando entravam para comprar bonecas.

— Esta é belíssima, elegante, tem um belo vestido e uma cintura fina.

— Esta tem uma expressão de felicidade, um olhar doce.

— Aquela, de cabelos louros, tem no rosto o sol abrasador do Verão.

Mesmo para uma boneca, era triste ficar ali na noite de Natal a olhar a solidão da rua. Sobretudo quando imaginavam a alegria das outras bonecas que tinham sido vendidas: a emoção de sair de dentro dos embrulhos, de sentir todas as atenções, de receber um nome, de entrar na família fantástica das crianças.

Todas as pessoas deviam ter uma casa, porque ninguém passava na rua. Todos os meninos deviam ter brinquedos na noite de Natal, porque os brinquedos mais bonitos tinham sido vendidos. Em todo o mundo devia haver alegria e surpresa e magia naquela noite, porque era dessa forma que a imaginavam.

Dentro das casas, o ar estaria povoado de seres fantásticos, que se moviam como se não tivessem peso. Esvoaçavam como se fossem pequenos pássaros transparentes. E isto criava uma grande excitação entre as crianças. Elas próprias se sentiam tão leves que os seus movimentos eram como os movimentos dos astronautas: dançavam, elevavam-se, sorriam, tocavam-se, cantavam melodias afinadíssimas e finas como um fio de cristal. As bonecas entravam também nesta dança fantástica como se fossem pessoas de verdade. A árvore de Natal transformara-se numa enorme tília de grandes ramos. Havia baloiços pendurados nos ramos. Havia pequeninas casas suspensas nos ramos. As estrelas desciam e poisavam nos ramos. E todos aqueles seres – crianças, anjos, pássaros, estrelas e bonecas – percorriam os ramos, como se fossem caminhos, entravam nas casinhas, dançavam nos baloiços, agarravam-se à cauda das estrelas. Entre os ramos mais distantes construíam passadiços e imaginavam rios por onde às vezes desciam: bebericavam, tomavam um banho, atiravam salpicos de água uns aos outros.

Estavam assim imaginando, quando se aproximou da montra uma figura muitíssimo estranha: tinha umas roupas sujas e gastas, os cabelos sujos e desalinhados, a barba suja e por fazer e nos seus olhos havia fome, desolação e desprezo. Falava sozinho palavras imperceptíveis.

— Esta figura não deve ser de cá…

— Talvez tenha descido de outro planeta, um planeta onde não há Natal, nem casas, nem anjos, nem estrelas, nem amigos…

A rua continuava deserta e o homem continuava ali fitando a montra e falando desordenadamente. De nenhum lado surgia uma sombra, uma voz, um movimento, um pássaro branco, um anjo de tule, um caule de luz. Até a música de algodão pendurada nos postes se tinha já calado.

— Como deve ser triste a vida na terra, na cidade ou no planeta donde veio…

Nada no seu rosto fazia lembrar a alegria: nenhuma expressão, nenhum traço, nenhuma palavra.

De vez em quando estendia o braço, apontando não se sabia o quê, apontando por apontar; e o vento gelado da noite alinhava os seus cabelos na direcção do braço. E nada lá ao longe fazia lembrar a liberdade. Outras vezes ficava estático e imóvel, fitando o infinito. Parecia uma estátua feita do mais cruel abandono; parecia um tronco velho de uma árvore; parecia a coluna de um palácio abandonado. E nada na sua pose fazia lembrar a paz. Outras vezes ajoelhava-se fitando o chão, como se o chão fosse um enigma por decifrar, como se na pedra do chão estivesse gravado um vestígio de Deus; como se Deus se tivesse esquecido, por acaso, de uma marca, um indício, um grão de poeira, um cabelo que fosse.

— Há tempos ouvi falar aqui na loja de um país ou planeta onde as pessoas são desprezadas, onde lhes negam o pão e as obrigam a matar-se umas às outras. Os que as governam são maus e obrigam-nas a viver na rua como animais vadios.

O homem não tirava os olhos da montra como se estivesse a falar com as bonecas, mas utilizando uma linguagem que elas não entendiam. Poisou no chão umas sacas que trazia consigo e começou a esbracejar. Mas nenhum dos seus gestos fazia lembrar a justiça. Ora estava de pé, ora de cócoras, ora se sentava no passeio. Mas sempre desenhando a mesma veemência, a mesma impaciência.

— Talvez queira dizer-nos alguma coisa. Talvez pense que somos pessoas. Talvez procure em nós uma resposta para as suas perguntas.

— Talvez tenha pena de nós e ficasse ali a distrair a nossa solidão.

Passado muito tempo, adormeceu encostado à montra. Um cão que passava remexeu-lhe nas sacas e fugiu abocando alguma coisa que não puderam ver o que era. Depois veio outro cão e deitou-se ao calor dos seus pés. Assim ficaram ali pela noite dentro. Era quase de madrugada quando apareceu, não se sabe de onde, uma mulher igualmente desgrenhada, cambaleante e com os olhos cheios de amargura e abandono. Trazia nos braços algo que poderia ser uma criança. Deitou-se também, puxou um dos sacos para a cabeça a fazer de travesseiro e adormeceu.

— São estranhas estas figuras… Como é que no país ou no planeta lá onde moram não há Natal?

— Como devem ser infelizes as pessoas… Um planeta sem Natal devia ser extinto, devia explodir nos ares, ficar desfeito em poeira fina e disperso pela imensidão dos céus.

— Provavelmente foram expulsas e tiveram de caminhar dias e noites até encontrar este recanto.

— Tiveram sorte de não serem assaltadas pelo caminho, nem de morrerem de frio, de sede ou de fome.

— Talvez tenham uma resistência e uma energia maior do que a das pessoas que conhecemos.

— Talvez o seu corpo não sinta frio nem calor. Talvez não precisem de alimento, de carinho, de amizade.

— Pelo menos numa coisa são diferentes de nós, bonecas: precisam de dormir…

— Devem ser alimentados e encorajados durante o sono por um anjo ou outro ser invisível.

Por um tempo deixaram-se destas conjecturas e voltaram a pensar como seria o Natal dentro das casas. Agora todos estariam já a dormir, sonhando com os anjos, os pássaros transparentes, as estrelas; sonhando com um tal Jesus, que não sabiam muito bem quem era, mas devia ser tão maravilhoso que até lhe chamavam Salvador.

Estavam assim imaginando, quando surgiu um carro da polícia. Parou em frente à montra. De dentro saiu um homem com uma farda e deu um pontapé no cão, que ganiu e fugiu a coxear. Depois fez o mesmo ao homem e à mulher e obrigou-os a entrar no carro, o que fizeram ensonados e sem oferecer resistência.

— Sempre não devem ser de cá…

— Talvez as autoridades os tenham levado para analisar e estudar como é a vida no país ou planeta de onde vieram.

— Ah! Já sei porque vieram buscá-los. Não te lembras de ouvir falar do Presépio? Era um homem, uma mulher, uma criança e um animal. Decerto andavam à procura de um presépio raro, e encontraram este e levaram-no para um museu.

— O que é um museu?

— É uma casa muito grande cheia de coisas antigas, raras e valiosas onde também há pessoas com olhos, boca, ouvidos e mãos; mas não vêem, não falam, não ouvem, não cumprimentam ninguém. Chamam-se estátuas.

— E dentro dos museus também há Natal?…
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Sonhos de Natal

Eu nasci e vivi alguns anos numa aldeia muito pequena escondida por uma enorme mancha de altos pinheiros e carvalhos gigantescos. Pedra de Hera era o nome dessa aldeia.

Todos os anos, com a chegada do Outono, da chuva e dos fortes ventos, as castanhas desprendiam-se dos redondos ouriços que enfeitavam os castanheiros centenários que havia espalhados por toda a Pedra de Hera. Sem as castanhas, os ouriços abertos lá no cimo dos castanheiros faziam-me lembrar ninhos cobertos por picos. E as folhas amarelecidas pareciam cobertores pequeninos a secar ao sol.

Com o passar dos dias e das noites cada vez mais frios, a chuva e as medonhas rajadas de vento punham as copas das árvores a abanar e faziam calar o canto dos pássaros.

As folhas dos castanheiros voavam em todas as direcções, como se fossem as borboletas da Primavera. Acabavam por cair em cima dos telhados, nos pátios, nos campos e nos caminhos estreitos, onde, além dos homens, mulheres e crianças, também passavam as cabras e as ovelhas, as vacas, os cães, os gatos, as raposas, os ratos do monte, as doninhas, os coelhos bravos e os javalis.

Quando os ramos dos castanheiros ficavam sem folhas, às vezes a minha pequena Pedra de Hera ficava coberta por um imenso manto de nuvens muito cinzentas.

O vento deixava de soprar, e os pássaros festejavam esse tempo tão sereno com as suas tímidas cantorias. Os camponeses apressavam os trabalhos nos campos e nas matas. Punham bastante comida nos estábulos dos animais. Depois iam sentar-se em frente da lenha que ardia calmamente nas lareiras de pedra, queimadas pelas fogueiras de muitos e muitos anos.

Nós, as crianças, começávamos a dar grandes gargalhadas e a saltar de contentes porque sabíamos que a neve não demoraria a chegar. Flocos ainda mais brancos do que as rocas de açúcar desceriam das nuvens, bailariam no ar e cairiam no chão.

E assim acontecia. De repente, os flocos de neve apareciam. E eram tantos e tantos e tantos, dançando e caindo de mansinho, que daí a pouco os caminhos, os campos, as matas e os telhados ficavam brancos.

Às vezes, a neve caía de noite sem fazer barulho.

Logo de manhã, enquanto bebia por uma malga com flores azuis o leite fervido e ainda a escaldar que a minha avó Mariana tirava da nossa cabra Lourença, espreitava pela vidraça da janela do meu quarto. E via marcadas na neve que tudo cobria, as patas dos pássaros desorientados e quase me parecia ouvir o bater muito apressado dos seus minúsculos corações. Daí a nada, com um carapuço de lã de ovelha que minha avó tricotara, e me oferecera no primeiro dia em que fui para a escola, pisava a neve, enterrava-me nela, e começava a fazer enormes bolas que acabavam em pedacinhos quando batiam nas paredes das casas, ou nos muros de pedra onde os lagartos e as sardaniscas dormiam profundamente.

Depois aparecia a Ana, a Joana, o Pedro, o Ricardo, meus companheiros de escola e brincadeiras, e também o senhor Afonso, que vivia sozinho numa casa muito pequenina e era muito mais velho que nós. Ele costumava dizer que tinha quarenta mais trinta anos.

Eu gostava muito do senhor Afonso e achava normal que ele tivesse quarenta mais trinta anos. Também achava natural que ele brincasse connosco, nos fizesse brinquedos de madeira, e que, de vez em quando, nos chamasse para dentro da sua cozinha escura e pobre e nos oferecesse pataniscas de bacalhau tão bem fritas e tão saborosas como só ele sabia cozinhar. Nem a minha avó era capaz de fazer pataniscas tão boas como as do senhor Afonso. A minha avó ficava triste por eu ter essa opinião, e dizia:

— As pataniscas do velhote são boas porque sabem a fumo. — Minha mãe ria-se. E eu respondia:

— Então porque é que a avó não vai fritá-las a casa dele?

— Era o que faltava, menino! — zangava-se minha avó Mariana.

Quando vinha muita neve, nós não íamos à escola, que ficava muito longe da nossa aldeia, e o senhor Afonso também saía de casa para nos ajudar a fazer um grande boneco de neve.

Púnhamos-lhe pauzinhos na cabeça a fazer de conta que eram cabelos, uma cenoura para que o nariz ficasse bem comprido.

Grãos de milho para que pudesse ver, uma manga de uma camisola vermelha a fazer de conta que era uma gravata muito vistosa. E, finalmente, uma vassoura velha para que se transformasse numa bruxa e voasse de noite, se tivesse vontade. Depois, com as mãos dormentes, ríamos muito e corríamos ao encontro das fogueiras, para nos aquecermos. E o senhor Afonso recomendava:

— Estejam atentos. Se ouvirem barulho saltem da cama. Se calhar, desta vez é que vai acontecer!

Quando vinha a noite, eu ficava muito ansioso. O que eu mais queria era ver o nosso boneco de neve a voar.

Eu vivia com a minha avó Mariana e com a minha mãe. O meu pai não estava na Pedra de Hera. Quando aconteceu tudo isto que estou aqui a contar, eu não sabia como era a voz do meu pai. Conhecia apenas uma fotografia de um homem muito sério que estava dentro de um caixilho pendurado na sala da nossa casa.

De vez em quando, o senhor Martins aparecia na Pedra de Hera. O senhor Martins era o velho carteiro, gorducho e bonacheirão, que trazia dentro de um saco de couro envelhecido boas e más novidades escritas em cartas e postais. A minha mãe ficava muito contente, se o via a parar junto de nossa casa. O senhor Martins, enfiado na sua farda de carteiro, quase sempre bastante transpirado por causa da longa caminhada, entregava uma carta a minha mãe e dizia, sorrindo:

— Que lhe faça bem!

Minha mãe ia para a cozinha, sentava-se num banquinho, abria o envelope com muito cuidado, retirava uma folhinha cheia de letras e começava a ler. E, enquanto lia, eu via-a sorrir, ficar de repente com um ar muito sério. Quando acabava de ler tudo, dava um suspiro fundo, olhava para mim e dizia:

— O teu pai manda-te mil beijinhos.

E a minha avó Mariana perguntava:

— Então?

— Está bem, tirando as queixas do costume.

Ora num ano, quando as férias do Natal já tinham começado, o senhor Martins entregou uma carta a minha mãe e disse, sorrindo:

— Que lhe faça bem!

Minha mãe foi para a cozinha, sentou-se num banquinho, abriu o envelope com muito cuidado, retirou uma folhinha cheia de letras e começou a ler. E, enquanto lia, eu via-a sorrir, sorrir sempre. Quando acabou de ler tudo, arrumou a carta no bolso do avental e não disse nada.

E a minha avó Mariana perguntou:

— Então?

— Está bem, tirando as queixas do costume.

E eu fiquei muito admirado:

— Então ele não manda nada para mim?

— Manda dar-te mil beijinhos.

Eu não disse mais nada. Mas achei que o meu pai escrevera coisas diferentes naquela carta

O meu pai estava a trabalhar no Brasil. Fora para lá três meses depois de eu ter nascido. Era o que minha mãe contava.

— Um dia ele aparece por aí — dizia a avó Mariana.

No tempo das férias de Natal, eu, o Ricardo, o Pedro, a Joana e a Ana passávamos muitas tardes enfiados na cozinha do senhor Afonso a ouvir as histórias que ele sabia contar. Às vezes ajudávamo-lo a cortar lenha. Empilhávamos as achas delgadas de carvalho a um canto da cozinha, que ele rachava com um machado muito afiadinho. Depois de estar tudo arrumado, ele dava-nos pataniscas de bacalhau. E era uma festa.

O senhor Afonso também ia cortar lenha para nossa casa. Mas a minha avó, em vez de fazer pataniscas, punha nos pratos arroz com penca e grossas fatias de salpicão cozido.

No tempo das férias de Natal, cada dia que passava, mais cedo anoitecia. As noites eram imensas e frias e eu, sentado num banquinho, ficava em frente da lareira a desejar que o Natal não tardasse muito a aparecer. Porque é no Natal que os sonhos são mais bonitos.

Uma semana antes do Natal, os dias andam ainda mais vagarosamente do que minúsculos caracóis. E dentro de nós vai crescendo uma vontade muito grande de ir ao calendário e apagar todos esses dias.

Naquele tempo também eu pensava do mesmo modo. Lá, na Pedra de Hera, nós andávamos cada vez mais ansiosos. E o Pedro voltava a contar o que lhe tinha acontecido no ano anterior. Nós já estávamos fartos de ouvir aquela história, mas deixávamo-lo falar, porque era muito bonita e fazia-nos sonhar. E eu aprendi, agora que já tenho quase tantos anos como o senhor Afonso, que uma das coisas mais bonitas da vida são os nossos sonhos ou os dos nossos amigos.

Contava o Pedro que, na noite de Natal do ano anterior, depois de se deitar na cama, ouviu, a meio da noite, um barulhinho muito estranho. Então, ele, com o coração aos saltos, pensou que era o Menino Jesus que estava a descer pela chaminé para entregar os presentes. Depois de muito hesitar, saiu da cama sem fazer barulho e foi caminhando com muitas cautelas em direcção à cozinha. Quando lá chegou, ficou sem poder falar nem mexer-se quando viu uma luz a desaparecer pela chaminé. Apesar da luz ser muito intensa, ainda teve tempo de ver os pés pequeninos do Menino Jesus.

— Se ele aparecer este ano, de certeza que o apanho! — terminava o Pedro, com os olhos muito brilhantes.

— E para que é que tu o queres apanhar? — perguntava a Joana.

O Pedro ficava calado por alguns instantes.

— Fazia-lhe muitas perguntas.

— Podias pedir-lhe para me levar uma boneca muito grande a minha casa — dizia a Ana, que sonhava ter uma boneca que fosse tão alta como ela.

E eu dizia:

— O Menino Jesus é muito esperto, nunca se deixa apanhar. Ninguém consegue vê-lo.

— Eu gostava de o ver… — suspirava o Ricardo. — E nós também.

Nem sempre houve televisão, vídeo e jogos de computador. A história que estou a contar passou-se num tempo em que essas coisas não existiam. Mas, mesmo sem essas coisas, nós, as crianças, gostávamos de ter presentes muito especiais. Para esse ano a nossa lista era a seguinte:

Ana — uma boneca muito grande.

Joana — uma casa de bonecas, com caminhas, berços e um trem de cozinha.

Pedro — um carro de corrida e uma carroça puxada por um burrinho.

Ricardo — um avião e um barco.

Manuel (que era eu) — Livros que tivessem muitas figuras coloridas e contassem histórias com aventuras extraordinárias e uma gravata vermelha.

— Para que é que queres a gravata? — perguntava o Ricardo.

— Para parecer bem. Não posso?

— Um avião e um barco é melhor, porque, assim, eu posso brincar a dar muitos passeios.

— Os livros são melhores porque contam histórias com princesas, monstros e bruxas.

— Tu lês muito bem, mas não sabes a tabuada toda… — ria-se o Pedro.

E eu fazia de conta que não tinha ouvido. Mas era verdade. Eu nunca me lembrava que sete vezes oito são cinquenta e seis. Mas sabia muito bem que três vezes nove são vinte e sete, sentadinho na retrete está o senhor Valete a comer um sabonete.

E, assim, cada um de nós ficava com o seu sonho. E é por isso que hoje temos profissões diferentes.

A Ana é costureira e tem uma filha que é muito maior do que ela.

A Joana é cozinheira num restaurante.

O Pedro é taxista.

O Ricardo trabalha no aeroporto de Lisboa.

O Manuel (que sou eu) inventa histórias e tem algumas gravatas vermelhas.

No dia vinte e três de Dezembro, depois do almoço, a Joana fazia lembrar a menina da história do Capuchinho Vermelho. Só que, em vez do capuz, a Joana trazia na cabeça um lenço muito florido que era de sua mãe, a Aninhas tecedeira. Toda a gente a tratava assim porque ela tinha um velho tear de madeira onde fazia mantas, lençóis de linho e cobertores de lã. De manhã à noite, ouvia-se sempre o mesmo som, que já nem os pássaros espantava: truc-truc, truc-truc, truc-truc, truc-truc…

Nesse ano, a Joana veio ter a minha casa com o lenço na cabeça e uma cestinha de vime na mão. Atrás dela, cada um com sua cestinha, vinham o Pedro, a Ana e o Ricardo, muito bem agasalhados, com carapuços enfiados na cabeça.

Fomos ter a casa do senhor Afonso, que ficava perto da fonte da Pedra de Hera e encontrámo-lo a dormitar, sentado em frente da sua lareira, onde havia sempre uma panela de ferro com água, muita cinza, um gato e um lume brandinho.

— Onde é que vão os meninos com essas cestinhas todas? Vão aos cogumelos, ou há por aí alguma videira que ainda não foi vindimada? — perguntou o senhor Afonso. Riu-se e eu reparei que naquela boca já não havia muitos dentes. E a cara tinha muitas rugas.

— Já está na hora de ir arranjar musgo e heras! Venha! Venha! — gritava a Joana.

E ele, muito sério:

— Agora não posso, tenho muita coisa para fazer…

— Venha agora, se não, vem a noite e já não conseguimos fazer nada.

— Se eu for, o que é que os meninos me dão?!…

Ficámos calados a olhar uns para os outros. Nós não tínhamos nada para lhe dar.

— Perderam a língua?!…

Então, eu lembrei-me das nozes que trazia nos bolsos das calças.

— Dou-lhe duas nozes.

— Não quero, é muito pouco… E eu já não tenho dentes para comer nozes…

— Venha, por favor! – pediu a Ana.

— Está bem. Se é um favor que me pedem… É só o tempo de calçar as botas.

Pouco depois, andávamos na mata a escolher o musgo que revestia pedras e penedos. E as nossas cestas foram-se enchendo de pequeninos tapetes verdes que não se podiam dobrar.

— Deixem ficar a terra, levem só o musgo — aconselhava o senhor Afonso, colhendo heras para um cesto.

As heras tinham muitos metros de comprimento e bagas muito pretas. Eu punha-me a imaginar que aquelas bagas bem podiam ser os olhos das heras. Às vezes, também imaginava como seria bom se os pássaros falassem connosco, mesmo os gaios e os melros que me roubavam as cerejas da cerejeira e bicavam as peras que havia no meu quintal.

Quando as cestas ficaram cheias, carregámo-las para o cimo da Pedra de Hera. Como as cestas pesavam imenso, caminhávamos devagar e tínhamos de descansar de dez em dez metros. O senhor Afonso, apesar de levar um cesto cheio de heras às costas, ia sempre a andar e nunca fazia pausas.

Finalmente chegámos junto de uma borda, à beira dum caminho estreito e pousámos as cestas. Nessa borda, havia uma gruta que há muitos anos alguém ali escavara. Dentro da gruta, talhado no saibro, havia um banquinho. Assim, se de repente chovesse, toda a gente lá podia entrar para se abrigar.

Nós gostávamos de ir para dentro da gruta, quando começava a cair imenso granizo. Sentados no banco, ficávamos calados e cheios de medo. As nossas mães não gostavam que fôssemos, mas aquele espectáculo era fascinante e nós gostávamos de ter medo durante algum tempo.

Na véspera de Natal, o interior da gruta que havia ao ciminho da minha aldeia sofria uma grande transformação. E em toda a Pedra de Hera nada havia mais bonito do que aquela gruta escavada na terra saibrenta.

O cesto com a hera e as cestinhas com o musgo ficaram no caminho, junto da gruta. E nós corremos para casa do senhor Afonso. Mas ele não nos acompanhou, vinha muito devagar, pouco se importando com as nossas pressas.

— Venha depressa! — gritava a Ana.

E ele respondia:

— Já tenho idade para não ter pressas.

Quando o senhor Afonso chegou, nós já tínhamos comido todas as nozes que havia nos bolsos das minhas calças, e estávamos fartos de esperar.

O senhor Afonso abriu a porta da cozinha; nós entrámos depois dele e corremos para junto de uma grande caixa de madeira enegrecida que havia na sala pequenina, à beira da janela, que tinha um vidro estalado.

Ele levantou a tampa da caixa com muito cuidado, encostou-a à parede, e nós espreitámos lá para dentro. Dentro da caixa havia saquinhos de linho com centeio, milho e feijões. No fundo de tudo, estava outra caixa, muito mais pequena, também de madeira.

Com muito cuidado, o senhor Afonso apanhou essa pequena caixa e foi pousá-la sobre uma cadeira. Depois de ter fechado a caixa grande, pegou na mais pequena com muito cuidado e saiu de casa.

Nós seguimo-lo, muito devagarinho, fartos de saber que o senhor Afonso já não tinha idade para ter pressas. E íamos calados para que a caixa não fugisse das mãos do senhor Afonso.

Quando a caixa ficou junto das nossas cestinhas cheias de musgo e do cesto carregado de hera, o senhor Afonso disse:

— Isto tem de ficar muito bem feito, ouviram? Agora quem manda sou eu. Combinado?

— Combinado!

— Ninguém se zanga. Combinado?

— Combinado!

— Só fazem o que eu disser. Combinado?

— Combinado!

— Vamos lá começar!

— Combinado! — disse a Joana, pouco atenta. E toda a gente se riu.

A primeira coisa a ir para dentro da gruta foi o musgo. Com muito jeito, alcatifámos o chão com as mantas fofas e verdes que fomos tirando das cestas. As heras foram crescendo em redor. E, de repente, o interior da gruta transformou-se numa serra verdinha, com arvoredo e cheia de pasto, a precisar de um rebanho de ovelhas e de alguns pastores.

O senhor Afonso levantou a tampa da caixa e nós ficámos calados a ver o que estava lá dentro. E o que estava lá dentro eram muitos embrulhinhos de jornal muito bem acondicionados.

Ai, mas aqueles jornais escondiam figuras que ganhavam vida e nos faziam sonhar tanto!

A primeira figura que ficou sem o papel era um pastor que se fartava de rir. Tinha umas bochechas muito encarnadas, vestia uns calções que lhe davam até aos joelhos e trazia um saquinho pelo ombro e uma cabaça à roda da cintura. Era um pastor alegre e devia ser bem amigo das suas ovelhas. Muito atento, o pastor foi para o cimo do monte e começou a assobiar pelo seu cão.

O cão, todo preto e com manchas brancas por todo o corpo, pulou da caixa, desembaraçou-se dos jornais que o embrulhavam, e foi logo ter com ele. Aquele cão era, com toda a certeza, um grande amigo do pastor, sempre pronto a ajudá-lo a guardar as ovelhas e a fazer-lhe companhia naquela serra imensa e silenciosa, onde o tempo custava a passar.

Gordinhas, com o corpo coberto de lã branca muito encaracolada, as ovelhas também apareceram e espalharam-se por toda a verdura. Muitas estavam cheias de fome, porque não paravam de pastar. Duas estavam tão fartas que nem sequer olhavam para aquele belo pasto. De cabeça erguida, fartavam-se de balir. Se calhar, achavam que estava na hora de dar a mama aos filhotes. Mas eles andavam lá longe, nos sítios mais altos do monte, a dar pinotes, felizes com tanta liberdade.

Feita com espigas de trigo, saiu da caixa uma manjedoura. Era uma boa ideia. Se chovesse ou nevasse, aquela manjedoura serviria para lá pôr feno seco para o rebanho comer.

Outro pastor chegou. Aquele pastor, que era ainda rapazinho e tinha um chapéu roto na cabeça, foi pôr-se junto dos cordeiros. E fez muito bem. Aquela parte da serra não estava vigiada. Se aparecesse um lobo, os cordeiros, coitaditos, nem sequer teriam tempo de chamar pelo cão.

Depois apareceu uma vaca. Devia ter dentro dela um filhote, porque tinha uma grande barriga e quis deitar-se junto da manjedoura. Do outro lado veio encostar-se um burrinho. Logo depois apareceu S. José e foi encostar-se à manjedoura. Atrás de José, veio Maria.

O burrinho, a vaca, José e Maria estavam a olhar para a manjedoura. Bem se via que estavam bastante preocupados. O bafo muito quente saía das narinas da vaca e do burrinho e aquecia a palha da manjedoura.

Uma estrela prateada apareceu no cimo da gruta, bem perto de um galo, que não parava de cantar.

Finalmente, muito gorducho, sempre a rir, só com uma fralda de pano no corpo, o Menino Jesus foi posto na manjedoura.

Depois ficámos bastante tempo a olhar, calados.

O silêncio era tão grande naquela gruta que até parecia que ouvíamos o Menino Jesus a respirar tranquilamente.

O senhor Afonso deixou-nos carregar a caixinha e os jornais que vinham dentro dela. Quando entrámos na sala, fui eu que meti a caixinha dentro da caixa de madeira enegrecida, junto dos sacos de linho cheios de centeio, milho e feijões.

Estava a anoitecer quando eu entrei em casa. Fui encontrar a minha mãe a mudar a água às muitas postas de bacalhau que estavam a demolhar num balde de madeira. Antes de me sentar, fiz-lhe um recadinho: fui à fonte buscar um regador de água.

Andei bem depressa, entornei até alguma água. Mas tinha de ser assim. É que já estava a ficar muito escuro e eu tinha medo que alguma bruxa má ou até um lobisomem surgisse de repente na curva do caminho, que era estreito e serpenteado.

Já vi muitas coisas, umas boas outras más.

Já ouvi muitas verdades e muitas mentiras.

Já passei por grandes cidades e por lugares ainda mais pequeninos do que a minha Pedra de Hera.

Muitas vezes me alegrei e algumas vezes fiquei triste.

Já não têm conta as vezes que sonhei acordado. E muitos sonhos compartilhei com os meus amigos.

Mas nada foi tão especial como aquele dia que calhou a vinte e quatro de Dezembro desse ano que agora relembro.

Quando acordei, já a minha mãe e a minha avó andavam muito atarefadas na cozinha. Na lareira, enormes labaredas aqueciam grandes panelas de ferro. Depois de almoçar o leite e as sopas de pão que a minha avó pôs dentro da malga com flores azuis, minha mãe mandou-me tratar da cabra Lourença.

E eu fui. Pelo caminho reparei que todas as casas da Pedra de Hera tinham um chapéu de fumo a cobri-las.

No nosso lameiro, que ficava junto da ribeira, comecei a cortar a erva com uma foicinha muito bem afiada.

Tinha já cortado um bom pedaço quando me assustei. No meio da erva encontrei um ninho de ratos pequeninos, ainda sem pêlo, muito rosadinhos. Estive quase para os matar com a ponta da foicinha. Depois pensei no Menino Jesus e nas prendas de Natal e deixei-os viver. O Menino Jesus devia ter ficado muito contente por ver que eu tinha um bom coraçao.

Com uma cordinha apertei a erva num belo molho e levei-o para a manjedoura da cabra. A Lourença ficou contente comigo. Ao regressar a casa, surpreendi-me com o cheiro diferente que envolvia toda a Pedra de Hera. Cheirava a açúcar queimado, a canela e a frituras.

Nessa noite, que demorava tanto a chegar, a nossa casa iria encher-se de gente. À volta da mesa comprida estariam os meus tios e os meus primos, a minha avó, a minha mãe e eu. Ao todo, éramos catorze.

Quando entrei na cozinha, minha avó enfeitava com canela grandes travessas de aletria. Minha mãe, com o rosto muito vermelho, transpirada, fritava as primeiras rabanadas. Em cima da mesa estava um monte de pencas repolhudas, e no chão um balde cheio com as maiores batatas criadas no nosso quintal.

— Queres comer uma postinha de bacalhau assado? — perguntou minha mãe.

Não cheguei a dizer que sim, que era muito capaz de comer uma bela posta de bacalhau assadinha nas brasas muito vivas da lareira, muito bem regada com azeite aquecido, e temperada com um dente de alho partido em pedacinhos.

E não cheguei a dizer que sim, porque ouvimos um barulho que não era habitual na Pedra de Hera.

As galinhas ficaram alvoroçadas, os cães desataram a ladrar. E a minha mãe disse, quase a medo:

— Será?

— É! — respondeu a minha avó.

Saí da cozinha a correr. Minha mãe acompanhou-me.

Quando cheguei ao largo da Pedra de Hera, vi a Ana, o Pedro, a Joana e o Ricardo, o velho táxi do senhor Joaquim a largar fumo e um homem alto e magro, de fato e gravata. Esse desconhecido ajudava o senhor Joaquim a retirar do velho táxi uma grande mala castanha. Três malas estavam amontoadas no chão.

Ao ver-me, o senhor Joaquim disse, de dedo apontado:

— Ó Zé, olha quem está ali!

O homem alto e magro olhou para a minha mãe e depois para mim. Abriu os braços e começou a caminhar devagarinho. Eu estava bem colado à minha mãe e vi que ele tinha os olhos muito brilhantes e sorria.

Aqueles braços abertos vieram enlaçar-se na minha mãe. Estiveram imenso tempo abraçados. E um manto de silêncio envolveu o largo.

Depois o homem olhou para mim. E, de repente, pegou em mim, atirou-me ao ar, como se eu fosse uma pena de um pássaro e acabei por cair nos seus braços. Apertou-me contra o seu peito.

E eu apercebi-me que os nossos corações batiam com muita força.

— Não dás um beijo ao teu pai? — perguntou.

E eu dei. A cara dele tinha uma barba que picava. Os beijos dele eram húmidos.

Quando meu pai me pôs no chão, toda a gente da Pedra de Hera estava no largo. O último a chegar foi o senhor Afonso.

E eu fiquei muito admirado: era a primeira vez que eu via lágrimas nos seus olhos.

Quando a escuridão tomou conta da Pedra de Hera, fui dizer ao senhor Afonso para vir consoar connosco, como era costume.

Nessa noite, a nossa sala ficou cheia de gente muito faladora à volta da mesa comprida. E era uma alegre confusão:

— Dá cá as batatas!

— Passa para aqui essa travessa de bacalhau!

— Não entornes o azeite!

— Quem é que tem a garrafa do vinagre?

— Estas tronchas estão muito paladosas. Só a geada é que lhes dá este sabor!

— Quero aletria!

— Dá-me daí um sonho!

— Que belas rabanadas!

— Quero outro bolinho de chila!

— Olha o que fizeste à toalha! Que grande nódoa de vinho…

— É Natal, não faz mal…

— O que eu mais gosto é de formigos. Ah, este sabor do mel é tão bom! Quero mais um bocadinho.

— Não quero mais nada. Estou satisfeito.

— Ó Zé, bebe mais um cálice de vinho fino!

— Está aqui muito calor!

— Quando é que vem o Menino Jesus?

— Não há-de demorar!…

— Não dormes, menino!

— Quem quer figos secos?

— Vamos jogar o par e o pernão?

— Atenção, o rapa vai rodar… Mãos abertas em cima da mesa!

— Rapa, tira, põe e deixa!

— Rapa os pinhões todos!

— Tanta loiça para lavar!

— Oxalá que para o ano toda a gente esteja aqui!

— Tenho sono…

— A missa do Galo deve estar a começar.

— Que horas são?

— Breve é meia-noite! O tempo corre!

— Lá fora está um frio de rachar. Agasalhem-se!

De repente, um sono muito forte tomou conta de mim. Tinha sido um dia muito especial.

Fui ao meu quarto buscar um sapato e pu-lo na lareira. Sentei-me no colo de meu pai e…

E não me lembro de mais nada!

Acordei com o cócórócócó do Pintinhas. O Pintinhas era o nosso galo de crista tombada. Eu é que lhe tinha posto esse nome por causa das suas penas com muitas cores.

O Pintinhas acordou-me e eu deixei-me ficar estendido na cama, com os cobertores por cima da cabeça. Na Pedra de Hera só se ouvia o cantar dos galos e o latido dos cães mais medrosos.

Era tão bom ficar a dormitar!

Depois, lembrei-me que era dia de Natal. E a vontade de ficar no morninho gostoso da cama passou num instante. O Menino Jesus já tinha passado pela minha casa e eu ali deitado!…

Nem sequer tive tempo de me vestir e calçar. Sempre a correr, em bicos de pés para não acordar a minha avó nem os meus pais, atravessei a sala e entrei na cozinha. Era gelado o chão da cozinha, mas a pedra da lareira ainda estava morna. A minha gata Tareca estava lá enroscada e não gostou nada que eu aparecesse.

Sentei-me num banco, pus os pés na pedra e ali fiquei a olhar, com o coração a bater com muita força. Pousado na lareira estava um grande embrulho. Que prenda estaria ali dentro? Eu nunca tinha visto um embrulho tão grande…

Devagarinho, muito, devagarinho, assim como quem come um chocolate delicioso em pequenas dentadas, comecei a tirar o laço. Oh! Era um laço tão bonito, tão dourado, que dava pena ter de o desfazer. Mas a vontade de ver o que estava ali dentro era tão grande!…

Agora que o laço estava enrolado em cima da mesa, era preciso retirar o papel. Era um papel vermelho, muito mais vermelho do que a crista do Pintinhas. Não, não podia estragar um papel tão bonito. Com ele até podia fazer moinhos de vento.

Com muito cuidado, fui retirando o papel.

O que estaria dentro daquela caixa de cartão? O que seria? O que seria?

Agora que o papel estava dobrado em cima da mesa, era preciso tirar a tampa da caixa. O que estaria ali dentro?

Tirei a tampa. Vi o que estava dentro da caixa e soltei um grito que espantou a Tareca.

Dentro da caixa estava um livro cheio de histórias, um livro de capa dura com muitas folhas cheias de linhas azuis sem uma única palavra, uma caneta de tinta permanente, um par de meias, uma gravata vermelha e um tambor.

Agora que as prendas estavam alinhadas em cima da mesa, era preciso admirá-las e decidir qual delas deveria usar pela primeira vez.

De repente, senti que tinha os pés gelados. Peguei nas prendas e levei-as para a minha cama.

E ali fiquei muito quieto a saborear o espanto e a alegria.

Por muitos anos que viva, nunca hei-de esquecer esse dia de Natal vivido nessa aldeia muito pequena, escondida por uma enorme mancha de altos pinheiros e carvalhos gigantescos. Pedra de Hera era o seu nome.

O milagre

A dificuldade que se tem no relacionamento com Don Crescenzo resulta do facto de ele ser surdo. Não ouve a mais pequena coisa, mas é demasiado orgulhoso para ler nos lábios. Além disso, não se pode iniciar uma conversa com ele escrevendo simplesmente qualquer coisa num papel. Não; tem de se fazer de conta que ele é ainda uma parte do nosso mundo barulhento e falador.

Quando perguntei a Don Crescenzo como passara o Natal, estava ele sentado numa cadeira de vime à entrada do seu hotel. Eram seis horas e o cortejo das caravanas tinha passado. O silêncio reinava e sentei-me na outra cadeirinha de vime, exatamente por baixo do barómetro com a imagem de publicidade da linha marítima, um barco branco no mar azul. Repeti a minha pergunta e Don Crescenzo levou as mãos às orelhas e abanou a cabeça com pesar. Em seguida, retirou um bloquinho e um lápis do bolso; eu escrevi a palavra Natale e olhei-o, expectante.

Eis, pois, a minha história de Natal que é, na verdade, a de Don Crescenzo.

Outrora pobre, Don Crescenzo é hoje um homem rico, patrão de mais de cem empregados, dono de grandes vinhas e pomares de limões, e de sete casas. Imaginem um rosto que, a cada ano de surdez, vai ficando mais suave, como se os rostos fossem sendo formados e marcados pelo ato constante de falar e responder. Deviam vê-lo a passear por entre os hóspedes do se­u hotel, atencioso e triste, imensamente só! É ainda conveniente saberem como gosta de contar coisas da sua vida e que não fala aos gritos, mas em voz baixa.

Já o escutara muitas vezes e é claro que conhecia a história do Natal. Sabia que começava com a noite em que a montanha “viera”. Sim, fora assim que gritaram: “a montanha vem aí!”. Retiraram a criança da cama e seguiram pelo caminho das rochas. Don Crescenzo tinha, na altura, sete anos e, quando falava daquilo, levava as mãos aos ouvidos para dar a entender que aquela noite fora, decerto, a culpada do seu sofrimento.

“Eu tinha sete anos e estava com febre”, disse ele, apertando as mãos contra as orelhas. “Estávamos todos em camisa de dormir e isso foi o que nos restou depois de a montanha ter empurrado a nossa casa para o mar: ficámos apenas com a camisa no corpo e nada mais. Fomos acolhidos por familiares e, mais tarde, outros parentes deram-nos um terreno, o mesmo onde hoje se encontra o Albergo.

Antes de o inverno chegar, os meus pais construíram aí uma casa. O meu pai fez o trabalho de pedreiro e a minha mãe arrastava-lhe os tijolos, dentro de sacos, pela ladeira abaixo. Era pequena e frágil e, quando pensava que não havia ninguém por perto, sentava-se um momento nas escadas, suspirando. E as lágrimas corriam-lhe pela face. Perto do fim do ano, a casa estava acabada e nós dormíamos no chão, embrulhados em cobertores e enregelados.”

“E depois chegou o Natal!”, disse eu, apontando para a palavra Natale escrita na primeira folha.

“Sim”, respondeu Don Crescenzo, “depois chegou o Natal e, nesse dia, eu estava triste como nunca estivera em toda a minha vida. O meu pai era médico, mas daqueles que não apontavam as contas. Tratava dos doentes e, quando eles perguntavam quanto deviam, ele respondia que, primeiro, tinham de comprar os remédios, e depois a carne para a sopa, e que depois lhes diria quanto era. Mas nunca o fazia. Conhecia as pessoas muito bem e sabia que não tinham dinheiro. Não era capaz de forçá-las, nem quando perdemos tudo e as nossas últimas economias foram gastas com a construção da casa. Fê-lo apenas uma vez, pouco antes do Natal, no dia em que queimámos a última lenha no fogão.

Naquela noite, a minha mãe trouxe um maço de papéis brancos e pousou-os diante do meu pai. Ditou-lhe uma lista de nomes. O meu pai escrevia-os nos papéis, com alguns números à frente, mas quando acabou, levantou-se e atirou as folhas para o lume do fogão, que estava a apagar-se. Fiquei contente com as belas chamas que o lume fez, mas a minha mãe estremeceu e olhou para o meu pai com tristeza e indignação.

Aconteceu que, no dia vinte e quatro de dezembro, não tínhamos mais madeira, nem comida, nem roupa decente para irmos à igreja. Não acho que os meus pais se tivessem preocupado muito com isso. Os adultos a quem tal acontece, estão certamente convencidos que dias melhores hão de vir e que vão então poder comer e beber, e rezar a Deus como tantas outras vezes tinham feito no decorrer dos tempos. Mas, para uma criança, é completamente diferente. Uma criança senta-se à espera do milagre, e quando o milagre não vem, acha que tudo acabou definitivamente…”

A estas palavras, Don Crescenzo debruçou-se e olhou para a estrada, como se alguma coisa lhe prendesse a atenção. Na verdade, tentava só esconder as lágrimas. Procurava que eu não visse como o veneno da deceção ainda hoje invadia todas as células do seu corpo.

“A nossa festa de Natal”, continuou ao fim de um momento, “é, de certeza, totalmente diferente dos Natais que se celebram no seu país. É uma festa muito barulhenta e alegre. O Menino Jesus é levado em procissão num relicário de vidro, acompanhado pela banda. Durante muitas horas, são lançados tiros de morteiro e o eco dos tiros é devolvido pelos rochedos, de maneira que parece uma violenta batalha. Os foguetes sobem para o ar, abrem-se em palmeiras gigantes e descem para o vale numa chuva de estrelas. As crianças, barulhentas, gritam, e o mar marulha tão alto com as suas ondas cor de chumbo, que é como se soluçasse e cantasse de alegria ao mesmo tempo. Esta é a nossa festa de Natal e esse dia é passado nos seus preparativos. Os rapazes preparam os foguetes enquanto as meninas fazem coroas e limpam os peixes prateados que penduram em volta da Madonna. Em todas as casas se fazem os assados, os bolos, e se prepara o xarope doce.

Em nossa casa também fora assim, tanto quanto me lembro. Mas, na noite de Natal a seguir ao desmoronamento da montanha, a nossa casa estava horrivelmente silenciosa. Não ardia um lume e, por isso, fiquei lá fora tanto tempo quanto me foi possível, porque sempre estava mais quente do que no interior. Sentado nas escadas, olhava para cima, para a estrada, onde as pessoas passavam e os automóveis, com as suas fracas lanternas de azeite, apareciam e desapareciam. Havia muita gente na rua. Lavradores que iam com as famílias à igreja e outros que ainda tinham coisas para vender, como ovos, galinhas vivas e vinho. Ali sentado, eu ouvia o cacarejar das galinhas e as conversas divertidas das crianças, que contavam umas às outras tudo o que iriam fazer naquela noite.

Eu seguia cada carro até desaparecer no buraco escuro do túnel. Depois, rodava a cabeça e procurava outro. Assim que a estrada foi ficando mais silenciosa, pensei que a festa devia ter começado e ia começar a ouvir alguns dos estoiros dos foguetes e os gritos de entusiasmo e de alegria. Mas não ouvia nada mais para além do barulho do mar a bater contra os rochedos e a voz da minha mãe que rezava e me chamava para que me juntasse à litania. Foi o que acabei por fazer, mas sem alma e contrariado. Tinha muita fome e queria a minha comida, carne, doces e vinho. Mas, acima de tudo, queria a minha festa, a minha bela festa…

De repente, tudo mudou. Inexplicavelmente.

Os passos na estrada pararam e os carros também. À luz das lanternas, vimos um enorme saco a ser atirado para o nosso jardim, cestos cheios até cima pousados à beira da estrada. Um carregamento de madeira e lenha miúda escorregava pelas escadas abaixo e, ao subi-las às apalpadelas, encontrei no murete mais baixo, dentro de pratos e bacias, ovos, galinhas e peixe.

Os misteriosos barulhos demoraram a terminar e nós pudemos ir ver quão ricos de repente tínhamos ficado. A minha mãe foi para a cozinha e acendeu o fogo. Eu fiquei lá fora a inalar ardentemente o aroma da mistura de azeite quente, cebolas, carne de galinha picada e alecrim.

Naquele momento, eu não sabia o que os meus pais já supunham: que os doentes do meu pai, os antigos devedores, tinham combinado fazer-lhe aquela surpresa. Para mim, tudo caiu do céu, os ovos e a carne, a luz das velas, o fogo e o lindo bibe que retirei de um saco de roupas e vesti tão depressa quanto pude. “Corre”, disse a minha mãe, e eu corri pela estrada abaixo, pelo comprido túnel escuro, ao fundo do qual faiscavam luzes coloridas.

Quando cheguei à cidade, vi logo de longe o dossel doirado, sob o qual o bispo iria ser transportado pelas íngremes escadas acima. Ouvi os tambores e os timbales de “Viva”, e gritei também com todas as minhas forças. Nas torres abertas, os sinos maiores começaram então a balançar e a tocar.”



Don Crescenzo calou-se. Sorria alegremente.

Ouvia ainda aqueles barulhos intensos que, durante tanto tempo, se haviam calado para ele e que, na sua solidão, possuíam um significado maior do que para qualquer outra pessoa: altruísmo, amor de Deus, renascimento da vida a partir da escuridão da noite.

Olhei para ele e peguei no bloquinho.

“Devia escrever, Don Crescenzo. As suas memórias.”

“Sim,” respondeu Don Crescenzo, “devia fazer isso.”

Marie Luise Kaschnitz

Gottfried Natalis (org.)
Weihnachtserzählungen
Frankfurt am Main, Insel Verlag, 1994
(Tradução e adaptação)

Noite de Natal – Sophia de Mello Breyner

Era uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim à volta.

No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito antigo, uma cerejeira e dois plátanos. Era debaixo do cedro que Joana brincava. Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro. Depois imaginava os anõezinhos que, se existissem, poderiam morar naquelas casas. E fazia uma casa maior e mais complicada para o rei dos anões.

Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. E, às vezes, ela ia a uma festa. Mas esses meninos a casa de quem ela ia e que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas. Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu jardim.

E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros meninos. Só sabia estar sozinha.

Mas um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de Outubro.

Joana estava encarrapitada no muro. E passou pela rua um garoto. Estava todo vestido de remendos e os seus olhos brilhavam como duas estrelas. Caminhava devagar pela beira do passeio sorrindo às folhas do Outono. O coração de Joana deu um pulo na garganta.

— Ah! — disse ela. E pensou:

«Parece um amigo. É exactamente igual a um amigo.» E do alto do muro chamou-o:

— Bom dia!

O garoto voltou a cabeça, sorriu e respondeu:

— Bom dia!

Ficaram os dois um momento calados.

Depois Joana perguntou:

— Como é que te chamas?

— Manuel — respondeu o garoto.

— Eu chamo-me Joana.

E de novo entre os dois, leve e aéreo, passou um silêncio. Ouviu-se tocar ao longe o sino de uma quinta. Até que o garoto disse:

— O teu jardim é muito bonito.

— É, vem ver.

Joana desceu do muro e foi abrir o portão.

E foram os dois pelo jardim fora. O rapazinho olhava uma por uma cada coisa. Joana mostrou-lhe o tanque e os peixes vermelhos. Mostrou-lhe o pomar, as laranjeiras e a horta. E chamou os cães para ele os conhecer. E mostrou-lhe a casa da lenha onde dormia um gato. E mostrou-lhe todas as árvores e as relvas e as flores.

— É lindo, é lindo — dizia o rapazinho gravemente. — Aqui — disse Joana — é o cedro. É aqui que eu brinco. E sentaram-se sob a sombra redonda do cedro.

A luz da manhã rodeava o jardim: tudo estava cheio de paz e de frescura. Às vezes do alto de uma tília caía uma folha amarela que dava voltas no ar.

Joana foi buscar pedras, paus e musgo e começaram os dois a construir a casa do rei dos anões.

Brincaram assim durante muito tempo.

Até que ao longe apitou uma fábrica.

— Meio-dia — disse o garoto — tenho de me ir embora.

— Onde é que tu moras?

— Além nos pinhais.

— É lá a tua casa?

— É, mas não é bem uma casa.

— Então?

— O meu pai está no céu. Por isso somos muito pobres. A minha mãe trabalha todo o dia mas não temos dinheiro para ter uma casa.

— Mas à noite onde é que dormes?

— O dono dos pinhais tem uma cabana onde de noite dormem uma vaca e um burro. E por esmola dá-me licença de dormir ali também.

— E onde é que brincas?

— Brinco em toda a parte. Dantes morávamos no centro da cidade e eu brincava no passeio e nas valetas. Brincava com latas vazias, com jornais velhos, com trapos e com pedras. Agora brinco no pinhal e na estrada. Brinco com as ervas, com os animais e com as flores. Pode-se brincar em toda a parte.

— Mas eu não posso sair deste jardim. Volta amanhã para brincar comigo.

E daí em diante todas as manhãs o rapazinho passava pela rua. Joana esperava-o empoleirada em cima do muro.

Abria-lhe a porta e iam os dois sentar-se sob a sombra redonda do cedro.

E foi assim que Joana encontrou um amigo.

Era um amigo maravilhoso. As flores voltavam as suas corolas quando ele passava, a luz era mais brilhante em seu redor e os pássaros vinham comer na palma das suas mãos as migalhas de pão que Joana ia buscar à cozinha.

A festa

Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até que chegou o Natal.

E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os seus sapatos de verniz preto e muito bem penteada às sete e meia saiu do quarto e desceu a escada.

Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande; eram as pessoas crescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que tinham fechado a porta para ela não entrar. Por isso foi à casa de jantar ver se já lá estavam os copos.

Os copos passavam a sua vida fechados dentro de um grande armário de madeira escura que estava no meio do corredor. Esse armário tinha duas portas que nunca se abriam completamente e uma grande chave. Lá dentro havia sombras e brilhos. Era como o interior de uma caverna cheia de maravilhas, e segredos. Estavam lá fechadas muitas coisas, coisas que não eram precisas para a vida de todos os dias, coisas brilhantes e um pouco encantadas: loiças, frascos, caixas, cristais e pássaros de vidro. Até havia um prato com três maçãs de cera e uma menina de prata que era uma campainha. E também um grande ovo de Páscoa feito de loiça encarnada com flores doiradas.

Joana nunca tinha visto bem até ao fundo do armário. Não tinha licença de o abrir. Só conseguia que a criada às vezes a deixasse espreitar entre as duas portas.

Nos dias de festa, do fundo das sombras do interior do armário saíam os copos. Saíam claros, transparentes e brilhantes tilintando no tabuleiro. E para Joana aquele barulho de cristal a tilintar era a música das festas.

Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam, tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário. As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal. Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Era uma festa. Era o Natal.

Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de Natal as estrelas são diferentes.

Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio, mas o próprio frio brilhava. As folhas das tílias, das bétulas e das cerejeiras tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como rendas pretas. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos.

E muito alto, por cima das árvores, era a escuridão enorme e redonda do céu. E nessa escuridão as estrelas cintilavam, mais claras do que tudo. Cá em baixo era uma festa e por isso havia muitas coisas brilhantes: velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal. Mas no céu havia uma festa maior, com milhões e milhões de estrelas.

Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada. Não pensava em nada. Olhava a imensa felicidade da noite no alto céu escuro e luminoso, sem nenhuma sombra.

Depois voltou para casa e fechou a porta. — Ainda falta muito tempo para o jantar? — perguntou ela a uma criada que ia a atravessar o corredor.

— Ainda falta um bocadinho, menina — disse a criada. Então Joana foi à cozinha ver a cozinheira Gertrudes, que era uma pessoa extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar, e mandava em tudo, e sabia tudo. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia.

A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os dois perus do Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos perus, muito esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada.

— Gertrudes, ouve uma coisa — disse Joana.

A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os perus.

— O que é? — perguntou ela.

— Que presentes é que achas que eu vou ter?

— Não sei — disse Gertrudes —, não posso adivinhar.

Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e por isso continuou a fazer perguntas.

— E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes?

— Qual amigo? — disse a cozinheira.

— O Manuel.

— O Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns.

— Não vai ter presentes nenhuns!?

— Não — disse a Gertrudes abanando a cabeça.

— Mas porquê, Gertrudes?

— Porque é pobre. Os pobres não têm presentes.

— Isso não pode ser, Gertrudes.

— Mas é assim mesmo — disse a Gertrudes fechando a tampa do forno.

Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido que era «assim mesmo».

Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. Todas as manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com a mulher da fruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze da noite. E sabia tudo o que se passava na vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de toda a gente. E sabia todas as notícias, e todas as histórias das pessoas. E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e os homens.

Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mentira. Joana ficou calada a cismar no meio da cozinha.

De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse:

— Já chegaram os primos.

Então Joana foi ter com os primos.

Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa.

Tinha começado a festa do Natal.

Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas. E as pessoas riam e diziam umas às outras: «Bom Natal». Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E vendo tudo isto Joana pensava:

— Com certeza que a Gertrudes se enganou. O Natal é uma festa para toda a gente. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com certeza que ele também tem presentes.

E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes.

O jantar do Natal era igual ao de todos os anos.

Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananases.

No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala.

As luzes eléctricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do pinheiro.

Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do Natal. Mas era sempre como se fosse a primeira vez. Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.

E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.

Joana olhava, olhava, olhava.

Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel.

Um dos primos puxou-a por um braço.

— Joana, ali estão os teus presentes.

Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca, a bola, os livros cheios de desenhos a cores, a caixa de tintas.

À sua volta todos riam e conversavam.

Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham tido, falando ao mesmo tempo.

E Joana pensava:

— Talvez o Manuel tenha tido um automóvel.

E a festa do Natal continuava.

As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar.

Até que alguém disse:

— São onze horas e meia. São quase horas da missa. E são horas de as crianças se irem deitar.

Então as pessoas começaram a sair.

O pai e a mãe de Joana também saíram.

— Boa noite, minha querida. Bom Natal — disseram eles.

E a porta fechou-se.

Daí a um instante saíram as criadas.

A casa ficou muito silenciosa. Tinham ido todos para a Missa do Galo, menos a velha Gertrudes, que estava na cozinha a arrumar as panelas.

E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a Gertrudes.

— Bom Natal, Gertrudes — disse Joana.

— Bom Natal — respondeu a Gertrudes. Joana calou-se um momento. Depois perguntou:

— Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade?

— O que é que eu disse?

— Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque os pobres não têm presentes.

— Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve presentes, nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os pobres são os pobres. Têm a pobreza.

— Mas então o Natal dele como foi?

— Foi como nos outros dias.

— E como é nos outros dias?

— Uma sopa e um bocado de pão.

— Gertrudes, isso é verdade?

— Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite.

— Boa noite — disse Joana. E saiu da cozinha.

Subiu a escada e foi para o seu quarto. Os seus presentes de Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E pensava:

— Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. São tal e qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o que queria. Mas ao Manuel ninguém deu nada.

E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, Joana pôs-se a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de animais.

«Que frio lá deve estar!», pensava ela.

«Que escuro lá deve estar!», pensava ela.

«Que triste lá deve estar!», pensava.

E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde Manuel dormia em cima das palhas, aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um burro.

— Amanhã vou-lhe dar os meus presentes — disse ela. Depois suspirou e pensou:

«Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal.»

Foi à janela, abriu as portadas e através dos vidros espreitou a rua. Ninguém passava. O Manuel estava a dormir. Só viria na manhã seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra escura: era o pinhal.

Então ouviu, vindas da Torre da Igreja, fortes e claras, as doze pancadas da meia-noite.

«Hoje», pensou Joana, «tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal.»

Foi ao armário tirou um casaco e vestiu-o. Depois pegou na bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a boneca, mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas.

Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por um. Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as panelas e não a ouviu.

Na sala de jantar havia uma porta que dava para o jardim. Joana abriu-a e saiu, deixando-a ficar só fechada no trinco.

Depois atravessou o jardim. O Alex e a Ghiribita ladraram.

— Sou eu, sou eu — disse Joana.

E os cães, ouvindo a sua voz, calaram-se.

Então Joana abriu a porta do jardim e saiu.

A estrela

Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar para trás. As árvores pareciam enormes e os seus ramos sem folhas enchiam o céu de desenhos iguais a pássaros fantásticos. E a rua parecia viva. Estava tudo deserto. Àquela hora não passava ninguém. Estava toda a gente na Missa do Galo. As casas, dentro dos seus jardins, tinham as portas e as janelas fechadas. Não se viam pessoas, só se viam coisas. Mas Joana tinha a impressão de que as coisas a olhavam e a ouviam como pessoas.

«Tenho medo», pensou ela.

Mas resolveu caminhar para a frente sem olhar para nada.

Quando chegou ao fim da rua virou à direita e meteu a um atalho entre dois muros. E no fim do atalho encontrou os campos, planos e desertos. Ali, sem muros nem árvores nem casas, a noite via-se melhor. Uma noite altíssima e redonda e toda brilhante.

O silêncio era tão forte que parecia cantar. Muito ao longe via- se a massa escura dos pinhais.

«Será possível que eu chegue até lá?», pensou Joana.

Mas continuou a caminhar.

Os seus pés enterravam-se nas ervas geladas. Ali no descampado soprava um curto vento de neve que lhe cortava a cara como uma faca.

«Tenho frio», pensou Joana.

Mas continuou a caminhar.

À medida que se ia aproximando dele, o pinhal ia-se tornando maior. Até que ficou enorme.

Joana parou um instante no meio dos campos.

«Para que lado ficará a cabana?», pensou ela.

E olhava em todas as direcções à procura de um rasto.

Mas à sua direita não havia rasto, à sua esquerda não havia rasto e à sua frente não havia rasto.

«Como é que hei-de encontrar o caminho?», perguntava ela.

E levantou a cabeça.

Então viu que no céu, lentamente, uma estrela caminhava.

«Esta estrela parece um amigo», pensou ela.

E começou a seguir a estrela.

Até que penetrou no pinhal. Então num instante as sombras fizeram uma roda à sua volta. Eram enormes, verdes, roxas, pretas e azuis, e dançavam com grandes gestos. E a brisa passava entre as agulhas dos pinheiros, que pareciam murmurar frases incompreensíveis. E vendo-se assim rodeada de vozes e de sombras Joana teve medo e quis fugir. Mas viu que no céu, muito alto, para além de todas as sombras, a estrela continuava a caminhar. E seguiu a estrela.

Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos.

«Será um lobo?», pensou.

Parou a escutar. O barulho dos passos aproximava-se. Até que viu surgir entre os pinheiros um vulto muito alto que vinha caminhando ao seu encontro.

«Será um ladrão?», pensou.

Mas o vulto parou na sua frente e ela viu que era um rei. Tinha na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto azul todo bordado de diamantes.

— Boa noite — disse Joana.

— Boa noite — disse o rei. — Como te chamas?

— Eu, Joana — disse ela.

— Eu chamo-me Melchior — disse o rei. E perguntou:

— Onde vais sozinha a esta hora da noite?

— Vou com a estrela — disse ela.

— Também eu — disse o rei —, também eu vou com a estrela.

E juntos seguiram através do pinhal.

E de novo Joana ouviu passos. E um vulto surgiu entre as sombras da noite.

Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros caía um grande manto vermelho coberto de muitas esmeraldas e safiras.

— Boa noite — disse ela. — Chamo-me Joana e vou com a estrela.

— Também eu — disse o rei —, também eu vou com a estrela e o meu nome é Gaspar.

E seguiram juntos através dos pinhais. E mais uma vez Joana ouviu um barulho de passos e um terceiro vulto surgiu entre as sombras azuis e os pinheiros escuros.

Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía um longo manto verde bordado de pérolas. A sua cara era preta.

— Boa noite — disse ela. — O meu nome é Joana. E vamos com a estrela.

— Também eu — disse o rei — caminho com a estrela e o meu nome é Baltasar.

E juntos seguiram os quatro através da noite.

No chão, os galhos secos estalavam sob os passos, a brisa murmurava entre as árvores e os grandes mantos bordados dos três reis do Oriente brilhavam entre as sombras verdes, roxas e azuis.

Já quase no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade. E sobre essa claridade a estrela parou.

E continuaram a caminhar.

Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana viu um casebre sem porta. Mas não viu escuridão, nem sombra, nem tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos anjos o iluminava.

E Joana viu o seu amigo Manuel. Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo.

Em sua roda, ajoelhados no ar, estavam os anjos. O seu corpo não tinha nenhum peso e era feito de luz sem nenhuma sombra.

E com as mãos postas os anjos rezavam ajoelhados no ar.

Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel.

— Ah — disse Joana — aqui é como no presépio!

— Sim — disse o rei Baltasar — aqui é como no presépio.

Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes.




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O Primeiro Natal em Portugal – Luísa Ducla Soares

É véspera de Natal. Mas não para Irina. Para ela só será Natal a 7 de Janeiro, quando as aulas tiverem recomeçado.
A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.
O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. É preciso, para poder acompanhar os colegas,
Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.

ОЛiВЕДЬ — lápis
ЗОШИТ — caderno
КИГА — livro
ШКОЛА — escola
Tudo diferente! Até o abecedário… Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe “língua de trapos”. Que quererá isso dizer?
Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular…
Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:

Irina, Irina, Irina,
Que menina tão fina!
Tem cara cor de sal,
Olhos cor de piscina.
Cabelos cor de margarina.
Ai, doem-te as saudades?
Vai tomar aspirina.

Na Ucrânia deixou tantos amigos…

Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.
Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir?
Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:
— Pareces uma fada!
E foge logo a correr.
Que palavrão será “fada”? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.
— Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria… Porque não voltam para o sítio de onde vieram?
Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?
Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.
É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.
Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo. Como pesa o silêncio!
De repente, sente um grito abafado no andar de cima. Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem o baque de uma queda…
Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!
— Acudam! Acudam!
Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.
Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.
Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar para trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.
Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.
— Ladrão atacar tu? Estar doente?
Tremendo, a outra responde:
— Chama o 112. O bebé vai nascer.
Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.
Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.
— Pai, pai! — grita ela.
Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.
— Que foi? Aconteceu alguma desgraça?
Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.
Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.
— Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.
A miúda obedece, confusa.
— Traz-me roupa lavada, para me mudar!
O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.
— Irina, a água já ferve?
De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.
— Força! Coragem! Está quase…
De súbito ouve-se o choro de um bebé.
— Entra, Irina — diz, pouco depois, o pai. — Vem ajudar. Já és crescida.
Entrega-lhe o recém-nascido.
A rapariga, na cama desalinhada, sorri.
— Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.
Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.
O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.
— Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.
— Sou médico — confessa o ucraniano. — Mas, em Portugal, ando nas obras…
As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.
— O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.
A mãe olha para o homem e pergunta:
— Como é que o doutor se chama?
— Anton.
— António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.
As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.
— Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.
— Manhã nós visitar! — exclama a garota.
Já passa da meia-noite. Pai e filha descem até ao patamar do primeiro andar. Na escada nunca há luz. Felizmente a gente do 112 usa lanternas… Mas, logo que o pessoal da ambulância se afasta, a escuridão instala-se. Às apalpadelas, o pai mete a chave na fechadura. Tropeça num embrulho.
— Que será? — espanta-se ele. — Esta é uma noite de surpresas.
Sobre o tapete de cairo está um embrulho enfeitado com um laçarote cor-de-rosa. Traz um bilhete preso com fita-cola.

Para uma fada loura.
com amizade

A menina abre-o. É um conjunto de canetas de ponta de feltro.
— O Pai Natal português não se esqueceu de ti — ri-se o médico.
— O Afonso é a única pessoa que me trata por fada — replica a Irina, um bocadinho corada.
Corre para o dicionário, passando as páginas até à número 159 e exclama, radiante:

OЗНАКА — fada

Depois, pega numa folha de papel e desenha, a amarelo, uma estrela a brilhar, a brilhar, a brilhar.

Luísa Ducla Soares
Há sempre uma estrela no Natal
Porto, Civilização Editora, 2006




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